18 de maio de 2010
Flores nas serras
O contorno geográfico do Ceará tem aparência de uma ferradura, como já comentaram vários observadores perspicazes. O Estado tem uma divisa natural com o Piauí, a oeste na Serra da Ibiapaba, esparramada entre Viçosa e os confins do Cariri. A Chapada do Araripe, na região sul, separa o Ceará do Piauí e de Pernambuco, enquanto o imenso Vale do Jaguaribe tem na Serra do Apodi um divisor territorial a leste com a Paraíba e o Rio Grande do Norte. O norte tem as águas do Oceano Atlântico como limite.
As três principais regiões elevadas experimentaram, muitas vezes, a adaptação de culturas agrícolas em busca de uma forma de desenvolvimento sustentável, como ocorreu com o café na Serra da Ibiapaba, com a mandioca no Araripe e, há pouco tempo, com o agronegócio no Apodi. A fruticultura foi outro caminho intentado para gerar atividade produtiva capaz de eliminar a ociosidade das terras e de promover a ocupação da mão-de-obra rural disponível.
Todas essas tentativas registraram oscilações características das atividades agrícolas, com ciclos economicamente rentáveis e outros marcados exclusivamente pelo desestímulo e por sensíveis prejuízos. Ainda assim, os produtores rurais das serras, praticantes da agricultura familiar, ainda insistem numa atividade herdada por atavismo. As grandes iniciativas de plantio, em larga escala, lançadas pelos governos, não tiveram continuidade, razão pela qual as transformações nas técnicas de cultivo e comercialização não avançaram.
Nos últimos tempos, entretanto, o pioneirismo de alguns empreendedores vem abrindo nas serras cearenses largo campo de um negócio antevisto como rentável pelas condições mesológicas favorecidas pela estabilidade do clima, do plantio durante o ano inteiro e da mão-de-obra abundante. O cultivo de flores está mudando o perfil econômico da Serra da Ibiapaba, onde três empresas especializadas estão produzindo, em larga escala, para o mercado externo, o consumo regional e para o abastecimento dos Estados da Bahia, Pernambuco, Pará, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal.
Na Serra Grande, a floricultura se destaca pela diversidade de sua produção e pela qualidade das flores de todos os tipos, possibilitadas pela estabilidade do clima e pelo longo período de verão. O fator climático permite maior lucratividade no empreendimento em razão dos três meses de frio registrados no Sudeste, onde há áreas concorrente de produção.
Enquanto essa é a realidade da Ibiapaba, a Chapada do Araripe começa a expor os efeitos positivos das primeiras iniciativas de aproveitamento dos solos e do clima para a produção de flores. A última Feira de Flores e Plantas ornamentais, realizada no centro do Crato, demonstrou o potencial de mercado e a qualidade de seus produtos, já consumidos na região e lançados em Fortaleza.
O mais significativo nessa experiência foi que antigos destruidores da floresta do Araripe para produção de lenha e carvão estão engajados numa atividade mais sustentável e preservacionista do meio ambiente. A floricultura regional, pelos indicadores iniciais, poderá ser um grande negócio.
Fonte: Editorial Diário do Nordeste



Tags
imprimir
enviar por email
RSS -